Desenvolvimento embrionário em Vertebrados

 

@ 2001-2005  À Descoberta da Vida

consulte os termos de uso!!

Os mecanismos que operam os diversos sistemas de órgãos dos animais reflectem uma eficaz adaptação ao meio, bem como uma progressiva complexificação estrutural e funcional. Deste modo, o estudo dos diversos sistemas de órgãos contribui para um correcto conhecimento dos diversos filos de animais.

Tudo se inicia com o ovo, ou zigoto, célula que contém toda a informação genética do novo ser. Desde a primeira divisão do ovo, ocorre um conjunto de processos que culminam com a maturidade do organismo – ontogénese – cujos sistemas estão totalmente formados e funcionais.

A parte do desenvolvimento que decorre desde a fecundação e formação do zigoto até ao nascimento designa-se embriogénese, e é por aí que se iniciará este estudo da estrutura do organismo animal. Após a embriogénese ocorre o nascimento, o período juvenil e, por último, a fase adulta, quando o animal tem capacidade de se reproduzir.

 

  Introdução

O desenvolvimento animal é um processo contínuo, iniciando-se no zigoto e tendo no nascimento um ponto marcante.

Quando os animais, ao nascer, diferem significativamente dos adultos considera-se que estes apresentam um desenvolvimento indirecto, passando por metamorfoses. Se, pelo contrário, o animal ao nascer, apresenta mais ou menos a forma definitiva considera-se este um desenvolvimento directo.

A embriogénese dos vertebrados revela uma progressiva adaptação ao meio terrestre: anfíbios estabelecem a transição do meio aquático para o terrestre, com desenvolvimento aquático, rápido e com metamorfoses. 

Nas aves os ovos são extremamente ricos em vitelo e protegidos por uma casca, enquanto nos mamíferos as reservas são reduzidas pois o desenvolvimento ocorre quase sempre no interior da fêmea, que fornece todas as necessidades da nova vida em desenvolvimento.

 

  Embriogénese em Vertebrados

Durante o desenvolvimento animal, em geral, ocorrem três fenómenos principais, não em sequência mas inter-relacionados de tal modo que cada um deles pode dominar uma parte do desenvolvimento:

  • Divisões celulares – embora existam durante todo o desenvolvimento, ocorrem em muito maior número no desenvolvimento embrionário. Este processo, realizado por mitoses sucessivas, permite obter um elevado número de células com o mesmo património genético original do zigoto;

  • Morfogénese – movimentos celulares em grande escala, originando os principais folhetos germinativos (ectoderme, mesoderme e endoderme);

  • Organogénese – a partir de células indiferenciadas dos folhetos germinativos vai ocorrer a diferenciação, formando-se tecidos. Estes vão-se inter-relacionar e formar órgãos e sistemas de órgãos.

 

Fenómenos principais
Durante o desenvolvimento embrionário há necessidade de fornecimento contínuo de nutrientes, permitindo não só a elaboração de biomoléculas constituintes das células mas também energia. Pelo menos durante as primeiras etapas do desenvolvimento, esses nutrientes devem ser fornecidos pelo ovo ou zigoto.

 

  Tipos de ovos

O ovo é uma célula que contém todas as estruturas necessárias à formação de uma nova vida:

  • Núcleo – diplóide, resulta da reunião dos núcleos do óvulo e do espermatozóide;

  • Protolecito – também designado por vitelo germinativo, é composto pelo citoplasma activo da célula (hialoplasma e organitos);

  • Deutolecito – também designado por vitelo de nutrição, é composto por nutrientes, nomeadamente proteínas, lípidos e glicogénio.

 

Composição do ovo

Estes componentes do ovo raramente estão homogeneamente distribuídos, sendo mais comum o ovo apresentar polaridade. Esta reflecte-se no facto de existir um pólo animal (zona do protolecito) e um pólo vegetativo (zona do deutolecito).

Assim, os ovos podem ser classificados segundo a quantidade e distribuição do vitelo que contêm:

  • Isolecíticos – ovos geralmente pequenos e com pouco vitelo (oligolecíticos ou microlecíticos). O vitelo geralmente está uniformemente distribuído, formando grânulos no citoplasma activo. O ouriço-do-mar, o anfioxo ou qualquer mamífero são exemplos de animais que produzem este tipo de ovo;

  • Heterolecíticos – ovos com quantidade média de vitelo (mesolecíticos), desigualmente distribuído, acumulando-se no pólo vegetativo, em placas separadas por citoplasma activo. O ovo dos anfíbios é deste tipo;

  • Telolecíticos – ovos grandes e com grande quantidade de vitelo (macrolecíticos), que ocupa quase a totalidade do espaço do ovo e separado do citoplasma activo, que se restringe a uma delgada camada superficial – blastodisco ou cicatrícula. Estes ovos são envolvidos por casca calcária ou córnea e contêm, ainda, albumina (clara). São deste tipo os ovos de répteis e aves.

Os diversos tipos de ovos influenciam igualmente as etapas da embriogénese que se seguem à sua formação.

 

Classificação de ovos quanto à quantidade e distribuição de vitelo

Toda a embriogénese é um processo contínuo, resultando as diversas etapas de um esforço de compreensão e de estudo dos complexos fenómenos que aí ocorrem. 

As suas  principais etapas são:

 

  Fases do desenvolvimento embrionário

Nesta etapa o fenómeno predominante é a divisão celular, que origina células progressivamente menores – blastómeros -, de modo que o tamanho total do embrião no final desta fase é quase igual ao tamanho do ovo. 

Este facto resulta de não existir síntese de citoplasma durante estas mitoses, apenas a distribuição do citoplasma do ovo. 

Assim, os blastómeros podem apresentar conteúdos citoplasmáticos diferenciados, um primeiro sinal da diferenciação celular. As mitoses sucessivas originam uma bola maciça de células – mórula -, com aspecto de uma pequena amora. 

No fim da etapa, essa bola de células tornou-se oca, com uma única camada de células – blastoderme – a rodear a cavidade interna – blastocélio – e designa-se blástula

A quantidade e distribuição do vitelo tem grande importância do desenrolar desta etapa pois este é composto por substâncias densas, que dificultam a divisão celular. 

Assim, a segmentação pode ser:

 

  Segmentação
  • Holoblástica igual – também designada total, ocorre nos ovos isolecíticos, onde a divisão é fácil e abrange todo o ovo, formando blastómeros de tamanho aproximadamente igual. Este tipo de divisão ocorre nos cordados inferiores e nos equinodermes;  

  • Holoblástica desigual – ocorre em ovos heterolecíticos, onde a divisão é mais fácil no pólo animal, formando-se aí mais e menores células – micrómeros -, e o inverso ocorre no pólo vegetativo – macrómeros. No entanto, saliente-se que a segmentação continua a abranger todo o ovo, tal como nos ovos de anfíbio;

 

Segmentação em ovos de anfioxo, do ovo à mórula Holoblástica
  • Meroblástica – também designada parcial, ocorre nos ovos telolecíticos, onde a quantidade de vitelo restringe as divisões a uma fina camada à superfície do ovo. Este tipo de segmentação pode dar origem a um blastodisco, pelo que se designará discoidal, tal como nos ovos de ave.

 

Meroblástica

Simultaneamente com a divisão celular, ocorrem movimentos celulares, uns em relação aos outros, pelo que a morfogénese é o fenómeno dominante nesta fase. 

Nesta etapa formam-se os dois ou três folhetos germinativos, conforme se trate de um animal diplo ou triploblástico. 

No fim desta fase, o embrião designa-se gástrula e terá duas ou três camadas de células a envolver o arquêntero, que abre para o exterior pelo blastóporo

Este processo é bastante diferente de espécie para espécie:

 

  Gastrulação
  • Invaginação – também designada embolia, é o processo mais simples, em que a zona da blastoderme correspondente ao pólo vegetativo, ou dos macrómeros, se invagina, afundando-se activamente até chegar ao contacto com a zona oposta. A parte invaginada forma a endoderme e a externa a ectoderme. Esta situação, considerada primitiva, ocorre nos cordados inferiores e nos equinodermes;

 

Invaginação
  • Epibolia – neste caso os macrómeros vão ser rodeados pelos micrómeros, devidos ás mitoses aceleradas destes. Assim, passivamente, os macrómeros ficam internamente, formando a endoderme e os micrómeros a ectoderme. Esta situação é típica dos ovos de anfíbio;

 

Epibolia
  • Migração – alguns blastómeros isolam-se e migram para o blastocélio, vindo a unir-se e a originar a endoderme, que ficará rodeada pela ectoderme. Este fenómeno é característico dos vertebrados superiores;

 

Migração
  • Delaminação – células da blastoderme dividem-se, segundo um plano paralelo à superfície, formando a endoderme.

 

Delaminação

Finalmente, por diferenciação celular dos diferentes folhetos formam-se os tecidos e órgãos do embrião. 

O primeiro sistema a formar-se é o nervoso, sendo essa etapa da organogénese designada neurulação e o embrião dela resultante neurula. 

Nesta etapa o embrião alonga-se, surgindo o plano básico do vertebrado. O eixo do corpo fica definido pelo surgimento de duas estruturas cilíndricas: tubo neural e a notocorda.  

Primeiras etapas da organogénese - neurulação

 

  Organogénese

Nos anfíbios as fêmeas produzem grande número de ovos, cobertos por uma substância gelatinosa. Já antes da fecundação, o ovo apresenta polaridade externa, pois o pólo animal é mais pigmentado que o vegetativo. 

Com a fecundação, essa pigmentação desloca-se para a zona intermédia entre os dois pólos, indicando o que será a parte dorsal do animal – crescente cinzento – localizado exactamente no lado oposto ao ponto de entrada do espermatozóide. 

Ao eixo pólo animal - pólo vegetativo irá corresponder o eixo antero-posterior do animal, sendo o pólo animal a cabeça.

Dado o ovo anfíbio ser heterolecítico e mesolecítico, a segmentação atinge todo o ovo mas forma blastómeros de diferente tamanho – segmentação holoblástica desigual

A blástula resultante apresenta mais de uma camada de células, rodeando um blastocélio em posição excêntrica (mais próximo do pólo animal).

A gastrulação inicia-se no crescente cinzento, perto do seu limite inferior, onde surge um sulco em forma de meia-lua. Esse sulco irá originar o blastóporo e é o local onde os macrómeros se vão deslocar para o interior. Além disso, os micrómeros dividem-se mais rapidamente, envolvendo as células maiores, numa combinação de invaginação e epibolia. O blastóporo forma o ânus e a boca abre na extremidade oposta do embrião – deuterostomia.

Na zona dorsal da ectoderme diferencia-se uma zona mais ou menos plana designada placa neural, que irá originar o tubo nervoso. Esta zona afunda-se ao centro – goteira neural – e os bordos elevados e espessados acabam por se unir num tubo de origem ectodérmica. Por baixo da placa neural, na zona de mesoderme dorsal,  diferencia-se o cordoblasto, que formará a notocorda e as vértebras. Lateralmente ao cordoblasto surgem blocos celulares – sómitos – que originarão os músculos segmentados. Mais abaixo, a mesoderme apresenta dois folhetos, separados pela cavidade celómica, um voltado para a ectoderme – folheto parietal – e outro voltado para a endoderme – folheto visceral.

 

  Embriogénese em anfíbios

Nos vertebrados completamente terrestres a embriogénese ocorre fora de água, o que levanta sérios desafios a estes animais, que necessitam de condições especiais:

  • Fecundação interna – maior eficácia, protecção dos gâmetas masculinos e economia de produção de gâmetas femininos;

  • Ovos macrolecíticos – a quantidade de vitelo fornece nutrição ao embrião em desenvolvimento;

  • Camadas de protecção – impedem a dessecação do embrião, fornecem nutrientes e gases e retiram excreções, chegando ao extremo dos animais vivíparos, em que o desenvolvimento ocorre no interior do corpo da fêmea.

 

  Embriogénese em vertebrados terrestres
Os ovos das aves, bem como dos répteis e mamíferos ovíparos, são telolecíticos e iniciam a segmentação ainda no oviducto, antes de serem expulsos pela fêmea para o ninho.

  Embriogénese em aves

Os principais componentes do ovo de uma ave, em tudo semelhante ao de um réptil, são:

  • casca - formada por diversas camadas sobrepostas, neste caso é de natureza calcária, o que a torna resistente mas porosa. O seu exterior é coberto por uma fina película - cutícula -, cuja função é impedir a entrada de partículas e microrganismos. Interiormente é revestida por duas membranas da casca (interna e externa), que apenas podem ser diferenciadas na zona do espaço aéreo (parte mais larga do ovo). A função destas membranas é controlar a evaporação do conteúdo hídrico do interior do ovo;

 

  • clara - também designada por albúmen, é formada por um material semi-sólido ou gelatinoso, com elevado conteúdo hídrico e proteico (albumina). Esta zona do ovo protege o embrião dos choques e fornece uma reserva de água e nutrientes. No seu interior diferenciam-se dois cordões proteicos - calaza - que manterão a gema no centro da clara mas permitindo-lhe girar e oscilar;

 

  • gema - corresponde ao óvulo propriamente dito, com grande quantidade de vitelo disposto em camadas concêntricas e envolvido por uma membrana vitelina

 

Ovo amniótico

Neste tipo de ovo, segmentação apenas atinge o protolecito, permanecendo o deutolecito indiviso e separado do blastocisto por uma pequena cavidade extra-embrionária – segmentação meroblástica discoidal. Pouco antes da postura, a blastoderme separa-se em duas camadas, com o blastocélio entre elas.

A gastrulação inicia-se com a formação de um sulco ao longo do eixo antero-posterior do embrião – linha primitiva -, que é equivalente ao blastóporo nos anfíbios, pois é através desse sulco que células superficiais vão migram para o interior e formar a mesoderme e a endoderme. 

No fim desta etapa o embrião está estendido sobre o deutolecito e é composto por três camadas (ectoderme, mesoderme e endoderme). No entanto, de seguida as orlas do embrião curvam-se para baixo, originando a forma tubular característica do cordado.

A neurulação desenrola-se de modo semelhante ao do anfíbio, embora os estádios seguintes sejam bastante diferentes.

Gastrulação em ovos de réptil e de ave (telolecíticos)

 

Desenvolvimento embrionário em aves

Associados ao desenvolvimento do embrião propriamente dito, vão surgindo os anexos embrionários (saco vitelino, âmnio, córion e alantóide), os quais são estruturas temporárias resultantes da extensão dos folhetos germinativos:

  • Saco vitelino – a endoderme e o folheto visceral da mesoderme envolvem o deutolecito (gema), formando um saco ligado ao intestino do embrião pelo pedúnculo vitelino. Esta membrana fornece nutrientes ao embrião, que retira do deutolecito;

 

  • Âmnio – adiante da região cefálica do embrião, uma dobra da ectoderme e o folheto parietal da mesoderme irá cobrir o embrião. Este fica no centro de uma cavidade amniótica, preenchida pelo líquido amniótico. Esta membrana protege dos choques, funcionando como uma almofada líquida e impede a dessecação;

 

  • Córion – em consequência da formação do âmnio, a dobra exterior da ectoderme e do folheto parietal da mesoderme desenvolve-se, circundando o âmnio e o saco vitelino. Esta membrana fica em íntimo contacto com as membranas da casca e delimita um espaço designado celoma extra-embrionário. Devido á sua ligação com a casca, esta membrana mobiliza minerais para a construção do esqueleto, tal como ajuda na respiração;  

 

  • Alantóide – um pequeno divertículo muito vascularizado, da zona posterior do intestino, da endoderme e do folheto visceral da mesoderme forma inicialmente um saco e depois acaba por envolver completamente a cavidade amniótica e o saco vitelino, ficando em contacto com o córion pelo lado interior. Estas duas membranas formam o alantocórion. A alantóide tem função respiratória e armazena os produtos de excreção do embrião.

Embrião de ave com 24 horas

Embrião de ave com 48 horas

Embrião de ave com 72 horas

Embrião de ave com 96 horas
Anexos embrionários

No Homem, tal como em todos os mamíferos vivíparos, os ovos são microlecíticos mas o desenvolvimento embrionário apresenta padrões semelhantes aos dos répteis e aves. Surge, no entanto, uma nova estrutura – placenta – que assegura o desenvolvimento dentro do útero materno.

Dado que o ovo tem poucas reservas, a segmentação é holoblástica igual e o embrião chega ao útero na fase de mórula.

O blastocisto, nome da blástula dos mamíferos e das aves, é formado por uma camada de células – trofoblasto – que rodeia o blastocélio, para onde faz saliência uma massa de células designada botão embrionário. Nesta fase ocorre a implantação no endométrio do útero, com a ajuda das células do trofoblasto, que segregam enzimas digestivas.

Cerca de duas semanas após a fecundação, inicia-se a formação do córion, a partir do trofoblasto. O córion forma vilosidades que mergulham no endométrio preenchido com sangue materno, terminando a nidação.  

No botão embrionário ocorre a gastrulação, com as células a diferenciarem-se em duas camadas (ectoderme e endoderme) e a terceira (mesoderme) a surgir por migração, pelo que a gastrulação e neurulação são muito semelhantes às de uma ave.

Certas células do botão embrionário vão formar as membranas extra-embrionárias (âmnio, saco vitelino praticamente sem deutolecito e alantóide rudimentar no caso humano).

Gastrulação num ovo de mamífero vivíparo

 

  Embriogénese em mamíferos

Durante os primeiros dois meses forma-se a placenta, em forma de disco e com origem mista (vilosidades do córion e endométrio materno, em cujas lacunas as vilosidades mergulham). 

Na zona ventral do embrião forma-se, a partir do âmnio e da mesoderme, o cordão umbilical, que liga o embrião á placenta. No cordão existem duas artérias e uma veia que transportam gases, nutrientes, hormonas, etc. e retiram excreções. A placenta garante, portanto, o desenvolvimento embrionário num animal em que o deutolecito é quase inexistente, retirando os nutrientes da circulação materna.

 

Placenta
 

Imprimir   <<  Home   >>   Fórum

Desenvolvimento animal nas notícias: